Da esq. para a dir., o sargento Flamarion Campos, o cabo Marcelo Ramires
e o sargento Luciano Paz se preparam para ir ao mali, onde defenderão a
França.
ERA CARNAVAL NO BRASIL e, enquanto os foliões
seguiam o trio elétrico no famoso circuito Barra/Ondina, em Salvador, do
outro lado do Atlântico, mais precisamente na França, o soteropolitano
Flamarion Campos, 33 anos, não desgrudava da televisão. Suas atenções se
voltavam às notícias que vinham do Mali, o país africano que, desde o
início do ano, conta com a ajuda do Exército francês para expulsar
terroristas e fundamentalistas islâmicos de seu território. E as
informações que chegavam davam conta de novos embates, principalmente em
Gao, cidade a 1,2 mil quilômetros da capital Bamako. Helicópteros
franceses haviam bombardeado pontos ocupados por extremistas e alguns
deles escondiam-se para atacar os soldados de surpresa. Mesmo a
quilômetros de distância da guerra, o clima era de pura tensão. Campos,
entretanto, não deixava transparecer o nervosismo que pairava no ar. Ele
checava o fuzil de assalto Famas com seus 14 carregadores, munidos de
25 cartuchos cada, e uma baioneta – nunca se sabe quando a bala vai
acabar –, verificava as granadas presas ao uniforme, ligava o rádio de
comunicação e vestia o colete a prova de bala, o capacete e os óculos de
visão noturna. O cuidado especial com os equipamentos era mais do que
necessário. Campos é sargento no 2o Regimento Estrangeiro de Infantaria
da Legião Estrangeira, em Nîmes, cidade no sul da França, a 715
quilômetros de Paris, e, ao lado dos também brasileiros Luciano Paz, 35
anos, e Marcelo Ramires, 35 anos, foi convocado para reforçar o
contingente de soldados franceses no país africano. A qualquer momento
irão para a linha de frente dos sangrentos combates. “Estou ansioso para
desembarcar no Mali”, diz Flamarion à Status.
Cabe, diante da afirmação de um brasileiro louco para ir para o
front, uma pergunta: por que lutar uma guerra que não é de seu país
natal? O poeta nacionalista francês Pascal Bonetti (1888-1975) tinha
essa resposta na ponta da língua. “São estrangeiros filhos da França,
não devido ao sangue que receberam, mas pelo sangue que derramaram”,
dizia sobre os integrantes da Legião Estrangeira. A tropa foi criada em
1831 pelo rei Louis Philippe para reforçar o Exército francês que lutava
para conquistar a Argélia. Ex-combatentes vindos de diversos conflitos
pela Europa encontraram refúgio na Legião. Sem família, sem documentos e
marcados por guerras passadas, eram vistos como homens mais durões e
passíveis de serem engajados em tarefas de alto risco no lugar do
Exército francês. Desde então, mais de 35 mil legionários perderam suas
vidas pela França.
Atualmente, quase 7,5 mil homens de 150 nacionalidades diferentes
vestem esse uniforme. Soldados vindos da América Latina, sobretudo do
Brasil, correspondem a 10% do contingente. Mas o maior grupo continua a
ser o de voluntários do Leste Europeu, com 18% do total. E a ofensiva no
Mali parece ser o grande teste de fogo dos legionários em busca de
ação.
O presidente francês, François Hollande, é recebido depois dos primeiros ataques realizados com aviões como os Mirage (acima).
Desde a guerra contra a independência da Argélia, em meados dos anos
1960, a França não manda tantos soldados para o front – até agora são
quatro mil homens. É também a ofensiva mais cara. A operação começou em
11 de janeiro deste ano e já custou mais de 70 milhões de euros aos
cofres públicos. Outros 2,7 milhões de euros escorrem diariamente pelo
ralo. É bem mais do que o 1,6 milhão por dia que foi empregado na Líbia e
o 1,4 milhão gasto no Afeganistão a cada dia de conflito. A entrada da
França no Mali, porém, não é puramente humanitária. Há muito mais em
jogo. Considerado um dos países mais estáveis da África desde os anos
1990, o Mali foi tomado pela violência após um golpe de Estado, em 22 de
março de 2012. Um grupo de militares rebeldes, comandados pelo capitão
Amadou Haya Sanogo e autodenominado Comitê Nacional para a Restauração
da Democracia e do Estado (CNRDR), derrubou o presidente Amadou Toumani e
anunciou em rede nacional a tomada do poder. O novo governo fracassou, o
grupo se dividiu e abriu terreno para a entrada dos islamistas.
Desmoralizado, o Exército local foi um adversário fácil.
Forças islâmicas ligadas à rede Al-Qaeda rapidamente ocuparam o norte
do país e já avançavam em direção à capital Bamako quando o Palácio do
Eliseu, sede do governo francês em Paris, foi chamado. Aos olhos do
presidente socialista francês, François Hollande, a tomada de uma
ex-colônia por extremistas significava uma mensagem internacional
negativa e uma ameaça à estabilidade da África Ocidental, a porta de
entrada para a Europa. Além disso, colocava em risco seus próprios
interesses econômicos, principalmente de empresas nacionais como a
mineradora Areva e a petrolífera Total. No norte do Mali há valiosas
reservas de gás natural e de petróleo. Já o vizinho Níger é o maior
fornecedor de urânio para as usinas nucleares francesas, responsáveis
por 80% da energia do país. A França, portanto, tinha de agir
rapidamente e mandar suas tropas para o ataque.

Um soldado da legião estrangeira com a máscara de uma caveira
Sede de combate
Antes de integrar a Legião Estrangeira, onde está há nove anos, Campos
fez parte do corpo de fuzileiros navais do Exército brasileiro por oito
anos. Deixou o Brasil porque tinha sede de lutar nos mais longínquos
lugares do planeta. “Sei que encontrarei dificuldades no Mali, mas a
vontade de lutar é mais forte”, diz ele. Bota dificuldade nisso. Os
soldados franceses estão alojados no meio do deserto, em acampamentos
provisórios, sem acesso a comunicação. As notícias aos familiares são
enviadas por cartas uma vez por semana. Indagado por Status sobre o seu
papel nesse cenário, principalmente por ser um estrangeiro, Campos não
vacila. Ele tem claro na cabeça que é o braço armado da política
francesa, mas não deixa de pensar na importância dessa missão para a
população local. “O reforço da Legião também significa a libertação de
um povo de um regime da época das cavernas”, diz. Seguindo uma
interpretação extrema da Sharia, lei islâmica, rebeldes provocaram
graves violações de direitos humanos no Mali, como violência sexual
contra as mulheres por não usarem corretamente o véu, amputações de
pessoas acusadas de roubo, prisões arbitrárias, tortura e o recrutamento
de crianças-soldado. Mais de 150 mil malianos fugiram para países
vizinhos.

Uma placa indica que a lei islâmica impera em Tombuctu
Campos participou de duas intervenções francesas na Costa do Marfim e
já testemunhou algumas injustiças sofridas pela população nesse tipo de
conflito. “Eu, que vim do subúrbio de Salvador, de um bairro muito
pobre, fiquei arrasado com a miséria humana quando passei por um campo
de refugiados, na fronteira com a Libéria”, lembra. Os soldados
franceses são proibidos de distribuir comida e outros objetos por onde
passam, por uma questão de segurança. Além do rápido tumulto que pode
ser gerado, existe a preocupação de passar a mensagem de que estão no
país para garantir a ordem e não para assumir o papel do governo local
nas questões sociais – o que não impedia o brasileiro de levar sempre um
chocolate no bolso para repartir com as crianças.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, em razão das campanhas
contra as independências de suas colônias, a França se especializou em
conflitos em países africanos. Em poucos dias de guerra no Mali, as
forças francesas retomaram o terreno perdido para os extremistas, como a
cidade histórica de Tombuctu, empurrando a linha de frente até
Tessalit, na fronteira com a Argélia. “Quando a Legião chega, ou o
rebelde corre ou morre. Eles sabem que não podem competir com o poder
bélico da França”, diz à Status o sargento Luciano Paz. Não é para
menos. De acordo com o Ministério da Defesa da França, foram enviados 12
aviões de combate, cinco aviões petroleiros, cinco aviões de transporte
tático, dois drones – os famosos aviões de combate não tripulados – dez
helicópteros e mais de 60 veículos blindados. “A população agradece, o
comércio reabre as portas e as escolas voltam a funcionar”, diz Paz.
Um maliano se pinta com as cores da França para agradecer
Hollande prometeu passar as operações para o Exército maliano já no
mês de março, mas dois atentados terroristas em Gao indicam que a
presença francesa será prolongada e que o pior ainda está por vir. O
porta-voz do grupo islamita Ansar Dine (Defensores do Islã), Senda Ould
Boumama, disse que trata-se apenas de uma “retirada tática”. Numa região
onde as fronteiras são linhas imaginárias no deserto do Saara, é quase
impossível falar em erradicar o radicalismo. É um esconderijo propício
para os milhares de insurgentes que contam com armamentos pesados, que
transitam livremente pela região após o fim do conflito na Líbia, e que
aguardam um novo momento de fraqueza para voltar.
Assim como acontece com os talebans no Afeganistão, o inimigo
invisível é o mais temido pelas autoridades locais. Entre as missões do
grupo de Luciano Paz está o treinamento do Exército maliano para
enfrentar esse tipo de ataque-surpresa. Ex-militar da Brigada
Paraquedista, no Rio de Janeiro, essa pode ser sua última guerra com o
uniforme francês, após oito anos de serviços prestados. Ele conheceu a
Legião em uma missão na fronteira com a Guiana Francesa e viu nela a
oportunidade de compensar a falta de futuro dentro do Exército
brasileiro. O período máximo que um militar pode servir no Brasil é de
nove anos. Apenas os concursados, aqueles que entram como militar de
carreira (sargento ou oficial), podem chegar à aposentadoria. Como
legionário, ele já participou de destacamentos em Djibouti, República
Centro-Africana, Guiana Francesa e Chade. “Tenho muito orgulho de fazer
parte desse Exército e sou muito respeitado entre os franceses por isso,
mas a Legião não proporciona um futuro financeiro confortável para
formar uma família”, explica.

A intervenção e as ruínas de um prédio atingido por aviões franceses
Hoje, a Legião e o Exército francês têm o mesmo nível tático e
desempenham quase as mesmas funções. Mas o estatuto pouco mudou desde a
época de Louis Philippe. O regulamento da Legião diz que “a despeito de
suas situações familiares, os candidatos são considerados solteiros no
momento de seu alistamento”. O salário inicial de um soldado de primeira
classe é de 1,1 mil euros mensais e pode chegar a 3 mil euros como
subtenente. Após 17,5 anos de serviço, o militar pode se aposentar, mas
sairá com um benefício médio de 900 euros mensais, o equivalente a R$
2,3 mil. Além disso, a rotina de treinamentos é pesada. Quase toda
semana eles vão para o campo de tiro ou para o “terreno”, como chamam os
treinamentos nas montanhas ou no campo. Também fazem muito exercício e
marchas longas.
Passaporte confiscado
Anualmente, cerca de 120 brasileiros chegam ao quartel-general de
Aubagne, a 17 km de Marseille, para se alistar na Legião Estrangeira.
Nem metade sobrevive aos testes físicos e psicológicos. E, quando
passam, precisam ainda enfrentar os temidos quatro meses de instrução em
Castelnaudary, a sudoeste da França, que terminam com uma marcha que
pode chegar a 150 quilômetros, com mochilas de mais de 30 quilos nas
costas e temperaturas abaixo de zero. Os recrutas que sobrevivem e
conquistam o “képi blanc”, símbolo da Legião, são remanejados para os
dez regimentos espalhados pela França, Guiana Francesa, Mayote e Abu
Dhabi. A partir daí, suas rotinas se alternam entre estágios e missões
no Exterior.
Também ex-fuzileiro naval, Marcelo Ramires, 35 anos, deixou o filho
no Brasil pelo sonho de fazer parte dessa tropa de elite e hoje sofre
para se adaptar ao rígido sistema. “O militar brasileiro não teme o
treinamento, mas sim a saudade de casa”, conta o cabo gaúcho, há quase
quatro anos na Legião. Assim que se engaja, o legionário é obrigado a
assinar um contrato inicial de, no mínimo, cinco anos. O passaporte é
confiscado em troca de uma identidade provisória francesa. Ele tem o
direito de recuperar seu verdadeiro nome após três anos de serviço. O
passaporte original pode igualmente ser solicitado nas férias, mas o
pedido nem sempre é atendido, para impedir deserções. Para driblar esse
controle, muitos brasileiros encontraram como saída procurar a Embaixada
do Brasil, em Paris, alegando a perda do documento para tirar uma
segunda via. “Mesmo assim, para um legionário, a satisfação de
participar de guerras históricas como essa compensa qualquer
dificuldade”, garante Ramires, que já participou de uma intervenção no
Chade e hoje deixa novamente para trás mãe, mulher e filho por seus
irmãos de arma entoando o canto da Legião: “Nous allons sac au dos,
flingue en main, Faire ensemble le même chemin” (Vamos de mochilas nas
costas, armas em mãos, percorrer juntos o mesmo caminho). Um caminho,
diga-se de passagem, bem árduo.